quinta-feira, 24 de maio de 2012

Cidade da criança

Solemar foi o berço da civilização de Praia Grande, pois o primeiro grito de independência partiu daquele recanto tranqüilo do município. Júlio Secco de Carvalho, homem empreendedor e de larga visão comercial, adquiriu grandes áreas de terras em Solemar com a finalidade de fornecer lenha de suas matas para a Estrada de Ferro Sorocabana, trabalho a que se dedicou durante vários anos. Um dia, esgotaram-se as reservas de madeira, e Júlio Secco de Carvalho teve a idéia de lotear a área, transformando-a numa vila próspera e atuante. Primeiro cuidou de construir moderna estação ferroviária, depois tratou de interessar os políticos da época em torno do local. 

A uns forneceu terrenos gratuitamente, a outros vendeu lotes a preço módico, tudo com a finalidade e conseguir para Solemar mais e mais melhoramentos. Júlio Secco de Carvalho, pioneiro de Solemar, abriu ruas, construiu a igreja, lutou para conseguir o cartório, transformou a vila de Solemar em distrito, e foi - ao lado de Nestor Ferreira da Rocha - os primeiros homens em Praia Grande a falar de Emancipação. Faleceu sem ver concretizada sua luta de tantos anos, mas o seu nome permanece vivo na lembrança de todos que querem bem a Praia Grande, sendo pronunciado sempre com respeito e carinho. Hoje, uma das ruas de Solemar e a escola levam seu nome. 

Outro cidadão português, proprietário de grande extensão de terras no bairro, sr. Adriano Dias dos Santos - casado com Adelaide Patrocínio dos Santos (grande dama que colaborou na construção da Santa Casa, doando o terreno, assim como na construção do Lar dos Velhinhos de Vila Mirim) -, ainda em vida fez a doação da grande gleba de terra em que hoje está instalada a Cidade da Criança. Segundo dona Adelaide Patrocínio dos Santos, a idéia da fundação da Cidade da Criança partiu de seu esposo Adriano Dias dos Santos, do sr. Wadih Pedro e do apoio do dr. Hélio Del Porto.

Fundada em 2 de abril de 1946, e mantida pela Associação Protetora de Menores de Santos, somente a 11 de fevereiro de 1969 teve sua personalidade jurídica definida.O terreno onde está localizada e instalada a Cidade da Criança ocupa uma área delimitada pelo Rio Itinga e Vila Hortência, ao longo do km 85,5 da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, onde mede 440 metros de frente, alcançando o espigão da Serra do Mar, no seu divisor.

Essa propriedade pertencia ao sr. Adriano Dias dos Santos, que em vida fez a doação da mesma, por entender que a obra merecia apoio e colaboração de todos.

As finalidade principal da obra era manter a Cidade da Criança, criada pela associação, para abrigar e educar menores desassistidos, administrando-lhes ensino primário e profissional, colaborando com o governo na assistência e proteção ao menor desamparado.Foram construídos 20 blocos onde se instalaram o Pavilhão da Administração com biblioteca, sala de música, gabinete odontológico e enfermaria. Havia a Igreja de Santa Luzia, o Pavilhão Comercial onde estavam instaladas padaria, barbearia, bazar, sala de merenda, depósio de material e 2 grandes frigorificos. Ainda a Fábrica de calçados (cujo pavilhão foi doado pelo Rotary Club de São Vicente), a Tipografia, artes gráficas, Carpintaria e mercearia, a Usina hidroelétrica e a Colchoaria. 

Haviam ainda residência para os funcionários e para os alunos cinco dormitórios com banheiros, lavanderia, salas de aula, refeitório e cozinha. Foi construído também um Ginásio de esportes e um estádio todo gramado com arquibancadas.

O Auditório "Adriano Dias dos Santos" e a Escola profissionalizante foram inaugurados no dia 28/6/1980. Cerca de 6 milhões foram gastos na construção dos dois prédios. pagos por D. Adelaide Patrocínio dos Santos, bem como a despesa com a compra do terreno. Tanto a escola como o auditório ocuparam uma área de 1.570 metros quadrados.


Os menores permaneciam na Cidade da Criança, onde moravam, estudavam e faziam suas refeições, até serem convocados para o Serviço Militar, e todos já saiam com colocação garantida, devido à capacidade profissional adquirida. 

A Cidade da Criança não era mantida apenas por doações ou mensalidades dos sócios e diretores. Grande parte de sua renda vinha dos serviços prestados e produzidos com o ensino profissionalizante tais como impressos, colchões, sapatos, móveis etc.

Todos os menores trabalham e recebiam uma gratificação em dinheiro. Uma espécie de salário mensal, mas existiam as horas de lazer, como banho no lago, jogos diversos (entre eles o futebol), cinema, projeções de slides, palestras educativas, comemoração de eventos, excursões e missa aos domingos na Capela de Santa Luzia.

A Cidade da Criança não posuia guardae raros os registros de fugas, de menores que viviam em ambiente de muita harmionia onde a disciplina e limpeza sempre foram fatores importantes. Além de contar com a abnegação do sr. Wadih Pedro, dos demais diretores e funcionários, durante anos pode se destacar o sargento José de Souza um valioso colaborador, que fora designado pelo então comandante da Fortaleza de Itaipu, coronel Teles Pires Dantas, para prestar serviços naquela entidade. Mesmo estando na reserva remunerada, o sargento José de Souza se dedicava inteiramente à Cidade da Criança.
Em entrevista concedida a um importante jornal da época, a sra. Adelaide Patrocínio dos Santos, pessoa modesta, simples e de pouco falar, não escondeu sua emoção ao ver mais uma obra concretizada. Instada a falar sobre a benemerência que pratica, dona Adelaide, com toda simplicidade, disse: "Cada pessoa vem ao mundo com uma missão definida por Deus; creio que vim predestinada para ajudar"... e completando disse que "ajudar é bom, quando existe uma pessoa honesta e com grande força de vontade para continuar uma obra tão importante, como Wadih Pedro".

O sr. Wadih Pedro foi o presidente da Cidade da Criança, desde sua fundação. Nunca permitiu que fossem construídos portões, nem muros, e com este sistema disciplinar a Cidade da Criança nunca registrou fugas nem motins. Muito se poderia falar de Wadih Pedro, mas a Cidade da Criança é o retrato do seu grande amor que teve pela humanidade e um amontoado de palavras em seu louvor pouco acrescentaria à personalidade daquele homem que, com visão de santo, escolheu o bem como profissão.

Contando com uma boa equipe de funcionários e colaboradores, destacaram-se o trabalho do sr. Álvares Teixeira, administrador, Sr. Osvaldo Pires da marcenaria, Sra. Josefa ( a "dona" Beta) e Sr. Domingos da cozinha, o Sr. Celestino Paixão sempre sorridente como mestre de obras, o motorista Sr. manoel Duarte ("seu" Maneco), Sr. José Fumero da marcenaria e tantos outros além de ex-alunos que se tornaram funcionários como o David Pacheco, Luiz Antronio da Silva (o Malaquias) que além de eletricista também dava aulas de capoeira aos alunos e José Luiz Quirino que foi servir o Exército, trabalhou nas Docas, mas chegou à conclusão de que seu trabalho seria mais útil no mesmo local onde aprendeu a ser bom. Quirino tornou-se administrador da Cidade da Criança sempre foi a figura mais solicitada e popular na Instituição. Solícito, conhecia a rotina de todos os alunos. Para ele não existia horário de trabalho ou dificuldade que não pudesse ser solucionada. Formado em Administração de empresas, Quirino é hoje um empresário no ramo gráfico e foi o primeiro presidente do Instituito Cidade da Criança.

A Cidade da Criança contava com 137 alunos internos e 100 que freqüentam a Escola Profissionalizante e mantinha ainda cursos de corte e costura, artesanato e uma loja na Rua do Comércio, 17, em Santos, onde eram comercializados calçados e produtos industrializados nas oficinas..